"Sem a curiosidade que me move, que me inquieta, que me insere na busca, não aprendo nem ensino" (Paulo Freire).
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Jogo, Interação e Linguagem

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sexta-feira, 16 de abril de 2010

Reflexão crítica da brincadeira "Galinha Choca"

Acadêmicas: Ananda, Flora e Mônica

“o brincar é o espaço da criação cultural por excelência”
Brougère (1998)

“qualquer conduta pode-se transformar jogo, por meio da
equivalência metafórica, quando a intenção do jogador está
presente”
Kishimoto (1999:35)


Observar e participar de brincadeiras que evocam as nossas próprias memórias da infância permitem um olhar outro, imbuído de certa reflexão pautada em teorias de diversas correntes psicológicas daquilo que se tem conhecimento sobre a infância e o desenvolvimento da criança, ao mesmo tempo que nos proporciona a prazerosa experiência de entregar-se ao brincar e ao jogo, sem a preocupação de expôr-se ao ridículo.

Quem, ao brincar de “A galinha bota ovo” (um dos nomes conhecidos por nós, variante de “A Galinha Quer Pôr” ou, para alguns , “A Galinha Quepô”), nunca sentiu a vertigem ou aquele frio na barriga por não querer ficar de castigo no meio da roda? Quem, ao jogar a mesma brincadeira, nunca quis colocar o “ovo choco” exatamente atrás daquele coleguinha “chato”, ou do menino impertinente, ou do menino/a mais bonito/a da turma, só para vê-lo/a correndo atrás de si? E será que todas as crianças que brincam de “Ovo Choco” sabem exatamente o que isso significa, ou já vivenciaram a experiência de ver galinhas chocando ovos de verdade e de pintinhos nascendo?
Segundo Leontièv (2001),

Já sabemos como o brinquedo aparece na criança em idade pré-escolar. Ele surge a partir de sua necessidade de agir não apenas em relação ao mundo dos objetos diretamente acessíveis à ela, mas também em relação ao mundo mais amplo dos adultos. Uma necessidade de agir como um adulto surge na criança, isto é, de agir da maneira que ela vê os outros agirem.

Portanto, refletir sobre a cultura lúdica da criança pressupõe um olhar sob novo prisma para com esta mesma cultura, não como um mundo à parte do nosso (adultizado, mais amplo), mas como algo que é intríseco ou inerente à essência do ser humano – sua capacidade de imaginar, de sonhar e de criar. Como na brincadeira citada, a situação imaginária de “botar o ovo” é, não somente a visão e a possibilidade de acesso à uma realidade externa à criança – mesmo para aquelas que nunca viram de verdade uma galinha botando ovo! – , mas a recriação do mundo real que ela já conhece e que tem acesso, além de simbolizar valores culturais e regras intrínsecas retransmitidas à elas de geração à geração. Brougère (1998), discorrendo sobre o jogo infantil, afirma:


O paradoxo é que o lugar de emergência e de enriquecimento da cultura é pensado fora de toda cultura como expressão por excelência da subjetividade livre de qualquer restrição, pois esta é ligada à realidade. (...) O brincar é uma dinâmica essencial do ser humano. (...) Cada cultura, em função de analogias que estabelece, vai construir uma esfera delimitada (de maneira mais vaga que precisa) aquilo que numa determinada cultura é designável como jogo. (...) Na realidade, há jogo quando a criança dispõe de significações, de esquemas em estruturas que ela constrói no contexto de interações sociais que lhe dão acesso a eles. Assim ela co-produz sua cultura lúdica, diversificada conforme os indivíduos, o sexo, a idade, o meio social.
Efetivamente, de acordo com essas categorias, as experiências e as interações serão diferentes.

Na apresentação da brincadeira, houve, de início, uma rica discussão sobre os seus diversos nomes, letras cantadas e modos de se brincar. Isso reflete a diversidade sociocultural que há, mesmo dentro do nosso Estado, e essa se amplia se pensarmos enquanto país. Cada pessoa, de acordo com suas memórias de infância, apresentou uma versão diversa tanto da canção quanto do desenvolvimento da brincadeira em si. Trata-se, portanto, de uma brincadeira tradicional em si, já que é compartilhada por todas nós, mas que comporta também uma tradição para cada grupo de crianças (LEONTIEV, 2001), dependente do contexto em que a brincadeira foi aprendida, e, porque não, modificada e ressignificada pelas crianças.

Tal diversidade fomentou o momento da nossa brincadeira e, antes mesmo de iniciá-la, algumas colegas expuseram a sua versão, a que costumava brincar na infância. Também nos leva a refletir que é possível explorar outras possibilidades de dinâmica: brincar um dia de uma versão e outro dia de outra desde que haja o interesse por parte dos alunos em repetí-la. Em relação à sequência didática, sugerimos apenas que a versão a ser brincada seja definida de forma bastante explícita no início, que as regras e a letra da cantiga sejam compartilhadas – uma vez que, no início da nossa brincadeira em sala, a cantiga era quase incompreensível, pois cada uma cantava do jeito como aprendera (afinal, é muito difícil aceitar que a nossa tradição não seja a forma “correta” de cantar, mexer com nosso repertório cultural).
A “Galinha Choca” traz um elemento fundamental para a Educação Infantil, que é o fato de explorar os sentidos: primeiro cantamos a música no individual e em seguida, no coletivo, todos cantam e também escutam, depois sentimos um movimento ou um som, o “ovo” nos é deixado e assim temos a percepção de que há algo próximo à nós. O fato de usar mais sentidos e não somente a visão é incorporado nessa brincadeira.
Assim, com este exemplo, podemos perceber que as culturas infantis não estão desconexas das suas particularidades culturais (dentro de cada região de um mesmo país ou sociedade), nem mesmo do seu contexto social mais amplo. Pode-se então considerar, também segundo Brougère (1998), que através do jogo a criança faz a experiência do processo cultural, da interação simbólica em toda a sua complexidade. Para ele, “a criatividade é a possibilidade de usar a linguagem para produzir enunciados pessoais, específicos, novos, e não a de repetir enunciados ouvidos ou aprendidos, seja qual for o valor intrínseco desses enunciados”(id.).
Há que se refletir a questão de não pedagogizarmos as brincadeiras e nem dar a elas um valor compensatório, mas valorizar o brincar pelo brincar, pelo simples prazer de estar ali naquele momento com colegas e juntos serem envolvidos naquele enredo. Essa é uma brincadeira que é protagonizada por cada um e que dá a todos a oportunidades de serem protagonistas no processo, sem exclusões – até mesmo a criança com alguma dificuldade motora, com a colaboração do grupo, consegue participar. Desta maneira, o sentido de grupo é valorizado, sem excluir a individualidade das crianças que vão criando por meio dela um enredo, uma imaginação, um faz-de-conta próprio e carregado de sentidos sobre o mundo.

Referências Bibliográficas:

BROUGÈRE, Gilles. A criança e a cultura lúdica. Revista da Faculdade de Educação, vol.24 n.2 São Paulo July/Dec. 1998.

LEONTIÈV, Alexis N. Princípios Psicológicos da Brincadeira Pré-Escolar. In: VIGOTSKI, L.S; LURIA, A.R & LEONTIÈV, A. N. Linguagem, Desenvolvimento e Aprendizagem. São Paulo: Ícone, 2001.

KISHIMOTO, Tizuko M. Jogo, Brinquedo, Brincadeira e Educação. São Paulo: Cortez, 1999.

sábado, 10 de abril de 2010

" A Galinha Choca"

Acadêmica: Vanessa Lúcia Coelho

Idade: a partir de 04 anos

Número de participantes: Entre 05 e 10 crianças

Descrição:

Fazer um círculo com as crianças, elas ficam sentadas no chão. Por fora da roda, a criança fica com uma bola de papel nas mãos, um lenço, uma pedra ou outro objeto qualquer simbolizando o “ovo”. A criança por fora da roda diz: “A galinha chocou”. As crianças da roda respondem: “Não podemos dizer nem para vovó, nem para o vovô.”

As crianças no círculo olham para frente, pois a que está com o “ovo” na mão deseja colocá-lo atrás de um colega distraído. Quando isto acontecer, criança deverá perceber, pegar o “ovo” e correr atrás da criança que estava andando fora do circulo. Quando alguém fica com o ovo e não percebe, normalmente os seus colegas do círculo podem avisar, caso este consiga pegar o colega que colocou o “ovo”, este irá para o meio da roda, caso contrário o antigo dono do “ovo” sentará no lugar daquele que estava sentado.

OUTROS NOMES DA BRINCADEIRA

OVO PODRE OU OVO CHOCO

Descrição:
Cada jogador risca, no chão, um círculo e coloca-se dentro dele. Os círculos são também dispostos em outro círculo. Os participantes, de pé, voltam-se para o centro da roda. Em alguns grupos, ficam acocorados, em outros, ainda de olhos fechados. Os círculos equivalem às “casinhas” de cada participante. Por fora da roda, uma criança porta um objeto qualquer, simbolizando o “ovo podre”. Em alguns grupos, o participante fora da roda é chamado “Galinha”.

A “Galinha”, enquanto anda por fora do círculo, vai dizendo: “Ovo choco, tá fedendo”. Em alguns grupos, o participante com o “ovo” diz “Ovo podre”, e os da roda respondem em coro: “Está fedendo”. As crianças que formam os círculos não podem olhar para trás, pois o participante que anda com o “ovo podre” na mão deseja colocá-lo atrás de um jogador distraído. Quando isso acontecer, a criança que recebeu o “ovo” deve correr atrás da “Galinha”, procurando toma-lhe a “casinha”. Quando alguém fica com o “ovo” e não percebe, os demais companheiros gritam: “Tá fedendo muito”. Se “Galinha” for apanhada, irá para o centro da roda, bem como aquele que ficou com o “ovo” e não percebeu até a galinha fazer a volta completa no círculo. A criança que for para o choco no centro da roda somente poderá sair se for substituída por outra, ou se apanhar o “ovo” que não foi visto por outro participante. Quando um vai para o choco, os demais batem palmas, ritmando a frase: “Ovo podre, tá fedendo”.

Variantes:
a. Porto Alegre

A criança participante da roda, ao perceber que recebeu o “ovo podre” (colocado no chão, às suas costas), deverá apanhá-lo e sair correndo atrás do companheiro que o colocou. Este já deve ter tomado distância, andando rapidamente em redor da roda (no sentido horário). Se o participante que colocou o “ovo podre” for apanhado antes de chegar ao lugar vago, deverá ir para o centro da roda chocar.

Quando a criança que recebeu o “ovo podre” não percebe por distração, os demais gritam: “Fedeu”. Se esse fato ocorrer duas vezes, o ovo ficará choco e essa criança vai para o centro substituir o que lá se encontra. Quando há substituição, os demais falam: “Tá fedendo”.

b. Passo Fundo

As crianças ficam agachadas, em círculo. A brincadeira é semelhante à descrição anterior. A perseguição, em vez de ser feita ao participante que colocou o objeto, será feita com o jogador que estiver à direita daquele que recebeu o objeto. Haverá, então, uma corrida de três elementos. O primeiro e o jogador da direita buscam colocação nos lugares vagos. O que leva o objeto procura apanhá-los. O que for apanhado deverá ir para dentro da roda, ali ficando acocorado: é o “ovo podre”. O mesmo ocorrerá ao que, por distração, não observar que recebeu o “ovo”. As crianças do círculo apupam o que está no centro, gritando: “ovo choco”, pé rachado”.


(Disponível em: http://espacompartilhado.blogspot.com/2007/08/brincadeiras_09.html Acesso em: 03/04/2010).

Ovo-choco com nomes

Faz-se um círculo com as crianças. A professora coloca nas costas de cada uma delas o nome de um colega da turma. Deve-se tomar cuidado para não colocar o nome da própria criança em si mesma. A partir daí, faz-se a brincadeira do ovo-choco normalmente, com o detalhe que, a criança que estiver de posse do ovo, deverá colocá-lo no amigo que está com o seu nome nas costas, e assim sucessivamente.


(Disponível em: http://deniseribeiro-pacheco.blogspot.com/2009/08/ovo-choco-com-nomes.html Acesso em: 03/04/2010).

Justificativa Teórica:

Ao escolher a brincadeira da “galinha chocou”, pensei que esta, proporcionaria uma relação com o imaginário da criança, pois o objeto que a criança segura em sua mão, representa o imaginário, ou seja, apenas representa o “ovo”, e ainda assim elas interagem na brincadeira, cantando e se envolvendo no contexto da mesma. É uma brincadeira que facilita a participação das crianças, pressupondo uma ação em equipe quando o colega não vê que foi escolhido para receber o objeto, as crianças da roda tem a liberdade de avisar para ele, de modo que ele poderá pegá-lo e correr ao encontro de quem colocou o “ovo”. Acredito também que haverá um estímulo a agilidade e concentração durante a atividade, além de movimentos corporais.

O imaginário infantil tem sido tema de estudos referente a relação das crianças com o mundo. E muitos estudos tem sido feito pelas correntes teóricas da psicologia, nas quais predominam as psicanalíticas e as construtivistas. Sobre elas Sarmento, (s/d, p. 02) afirma:

Para Freud, o imaginário infantil corresponde à expressão do princípio do desejo sobre o principio da realidade, sendo o jogo simbólico uma expressão do inconsciente, para além da formação da censura. Para Piaget, o jogo simbólico, é a expressão do pensamento autistico das crianças, progressivamente eliminado pelo processo de desenvolvimento e construção do pensamento racional. Apesar das diferenças essenciais entre as diversas orientações, sedimentadas na história da disciplina, as perspectivas psicológicas do imaginário infantil possuem um elemento comum, que é aliás inerente à própria concepção moderna da infância: o imaginário infantil é concebido como a expressão de déficit – as crianças imaginam o mundo porque carecem de um pensamento objectivo ou porque estão imperfeitamente formados os seus laços racionais com a realidade.


Porém a visão da epistemologia tem vindo contrariar as concepções de déficit, na qual acredita que o imaginário faz parte das relações humanas, a criança participa de faz-de-conta que não modifica a realidade, sobre a teoria podemos recorrer, ainda Sarmento (s/d, p. 03).

[...] uma revisão recente dos conceitos psicanalíticos e construtivistas sobre o jogo simbólico, postula que, ao contrário da idéia de uma diferença radical entre o jogo da criança e o jogo do adulto, por imaturidade infantil, o que existe é um princípio de transposição imaginária de real, que é comum a todas as gerações e se exprime, por exemplo, na experiência emocional das narrativas literárias ou cinematográficas tanto quanto nas brincadeiras das crianças, construindo assim uma “capacidade estritamente humana” (Harris,2002), mas que é radicalizada pelas crianças. É, portanto, da ordem da diferença e não do déficit que falamos, quando falamos do imaginário infantil, por relação com o dos adultos.


Diante do citado, percebo que a brincadeira é um momento que pode proporcionar as crianças o seu desenvolvimento com o imaginário, de forma agradável e possibilitando a integração do grupo, Leontiev (1988, p. 123) contribuiu para este diálogo ao afirmar que:

[...] o brinquedo é caracterizado pelo fato de seu alvo residir no próprio processo e não no resultado da ação. Para uma criança que está brincando com cubos de madeira, por exemplo, o alvo da brincadeira não consiste em construir uma estrutura, mas em fazer, isto é, no conteúdo da própria ação. Isto é verdadeiro não apenas no caso das brincadeiras do período pré-escolar, mas também no de qualquer jogo em geral. A fórmula geral da motivação dos jogos é “competir, não vencer”.


Relacionando a brincadeira da “galinha chocou” que foi apresentada, acredito que a intenção não é vencer e chegar no colega para colocá-lo no meio da roda, a intenção da brincadeira é participar, seja do lado de fora da roda, seja avisando o colega que este foi escolhido e recebeu o “ovo”, seja no meio da roda, ou ainda cantando.

VARIAÇÕES CONFORME AS PARTICULARIDADES DAS CRIANÇAS:

a. Caso a brincadeira esteja acontecendo e apenas uma criança tenha ido para o meio da roda, pois não correu a tempo de pegar o lugar do colega que recebeu o “ovo”, podemos modificar um pouco a brincadeira para que ela não se sinta excluída, ou pouco capaz. Neste caso, pode ser sugerido que a criança fique apenas uma rodada no meio e depois volte para a roda.

b. As crianças ficam de olhos vendados e cantando, quando a criança fora do círculo para de cantar elas podem tirar a venda e quem recebeu o ovo corre para pegar quem colocou.

VARIAÇÕES DAS MÚSICAS:

1. Criança fora da roda: A galinha quer pôr
Todas do círculo: Não podemos dizer nem para o vovô, nem para a vovó, nem para o galo carijó. Co-ró-có-có.

2. Criança fora da roda: A galinha quer pôr
Todas do círculo: Não podemos dizer nem para a vovó, nem para o vovô que o ovo quebrou na careca do vovô

3. Criança fora da roda: Ovo choco
Todas do círculo: Galinha choca

Referências Bibliográficas:

SARMENTO, Manuel Jacinto. Imaginário e culturas da infânciaLinguagem, desenvolvimento e aprendizagem. Disponível em: http://titosena.fortunecity.com/Arquivos/Artigos_infancia/Cultura%20na%20Infancia.pdf Acesso em 03/04/2010.


LEONTIEV, Alexis N. Os princípios psicológicos da brincadeira pré-escolar. In: VIGOTSKY, L. S.; LURIA, Alexander R.; LEONTIEV, Alexis N. Linguagem, Desenvolvimento e Aprendizagem. São Paulo: Ícone/Edusp, 1988.