“o brincar é o espaço da criação cultural por excelência”
“qualquer conduta pode-se transformar jogo, por meio da
Kishimoto (1999:35)
Observar e participar de brincadeiras que evocam as nossas próprias memórias da infância permitem um olhar outro, imbuído de certa reflexão pautada em teorias de diversas correntes psicológicas daquilo que se tem conhecimento sobre a infância e o desenvolvimento da criança, ao mesmo tempo que nos proporciona a prazerosa experiência de entregar-se ao brincar e ao jogo, sem a preocupação de expôr-se ao ridículo.
Quem, ao brincar de “A galinha bota ovo” (um dos nomes conhecidos por nós, variante de “A Galinha Quer Pôr” ou, para alguns , “A Galinha Quepô”), nunca sentiu a vertigem ou aquele frio na barriga por não querer ficar de castigo no meio da roda? Quem, ao jogar a mesma brincadeira, nunca quis colocar o “ovo choco” exatamente atrás daquele coleguinha “chato”, ou do menino impertinente, ou do menino/a mais bonito/a da turma, só para vê-lo/a correndo atrás de si? E será que todas as crianças que brincam de “Ovo Choco” sabem exatamente o que isso significa, ou já vivenciaram a experiência de ver galinhas chocando ovos de verdade e de pintinhos nascendo?
Já sabemos como o brinquedo aparece na criança em idade pré-escolar. Ele surge a partir de sua necessidade de agir não apenas em relação ao mundo dos objetos diretamente acessíveis à ela, mas também em relação ao mundo mais amplo dos adultos. Uma necessidade de agir como um adulto surge na criança, isto é, de agir da maneira que ela vê os outros agirem.
Portanto, refletir sobre a cultura lúdica da criança pressupõe um olhar sob novo prisma para com esta mesma cultura, não como um mundo à parte do nosso (adultizado, mais amplo), mas como algo que é intríseco ou inerente à essência do ser humano – sua capacidade de imaginar, de sonhar e de criar. Como na brincadeira citada, a situação imaginária de “botar o ovo” é, não somente a visão e a possibilidade de acesso à uma realidade externa à criança – mesmo para aquelas que nunca viram de verdade uma galinha botando ovo! – , mas a recriação do mundo real que ela já conhece e que tem acesso, além de simbolizar valores culturais e regras intrínsecas retransmitidas à elas de geração à geração. Brougère (1998), discorrendo sobre o jogo infantil, afirma:
O paradoxo é que o lugar de emergência e de enriquecimento da cultura é pensado fora de toda cultura como expressão por excelência da subjetividade livre de qualquer restrição, pois esta é ligada à realidade. (...) O brincar é uma dinâmica essencial do ser humano. (...) Cada cultura, em função de analogias que estabelece, vai construir uma esfera delimitada (de maneira mais vaga que precisa) aquilo que numa determinada cultura é designável como jogo. (...) Na realidade, há jogo quando a criança dispõe de significações, de esquemas em estruturas que ela constrói no contexto de interações sociais que lhe dão acesso a eles. Assim ela co-produz sua cultura lúdica, diversificada conforme os indivíduos, o sexo, a idade, o meio social.
Na apresentação da brincadeira, houve, de início, uma rica discussão sobre os seus diversos nomes, letras cantadas e modos de se brincar. Isso reflete a diversidade sociocultural que há, mesmo dentro do nosso Estado, e essa se amplia se pensarmos enquanto país. Cada pessoa, de acordo com suas memórias de infância, apresentou uma versão diversa tanto da canção quanto do desenvolvimento da brincadeira em si. Trata-se, portanto, de uma brincadeira tradicional em si, já que é compartilhada por todas nós, mas que comporta também uma tradição para cada grupo de crianças (LEONTIEV, 2001), dependente do contexto em que a brincadeira foi aprendida, e, porque não, modificada e ressignificada pelas crianças.
Tal diversidade fomentou o momento da nossa brincadeira e, antes mesmo de iniciá-la, algumas colegas expuseram a sua versão, a que costumava brincar na infância. Também nos leva a refletir que é possível explorar outras possibilidades de dinâmica: brincar um dia de uma versão e outro dia de outra desde que haja o interesse por parte dos alunos em repetí-la. Em relação à sequência didática, sugerimos apenas que a versão a ser brincada seja definida de forma bastante explícita no início, que as regras e a letra da cantiga sejam compartilhadas – uma vez que, no início da nossa brincadeira em sala, a cantiga era quase incompreensível, pois cada uma cantava do jeito como aprendera (afinal, é muito difícil aceitar que a nossa tradição não seja a forma “correta” de cantar, mexer com nosso repertório cultural).
Referências Bibliográficas:
BROUGÈRE, Gilles. A criança e a cultura lúdica. Revista da Faculdade de Educação, vol.24 n.2 São Paulo July/Dec. 1998.
LEONTIÈV, Alexis N. Princípios Psicológicos da Brincadeira Pré-Escolar. In: VIGOTSKI, L.S; LURIA, A.R & LEONTIÈV, A. N. Linguagem, Desenvolvimento e Aprendizagem. São Paulo: Ícone, 2001.
KISHIMOTO, Tizuko M. Jogo, Brinquedo, Brincadeira e Educação. São Paulo: Cortez, 1999.